Adriana Facina

Adriana Facina

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Pesquisar a favela, pesquisar na favela, pesquisar com a favela

Os desafios do(a) pesquisador(a) acadêmico que deseja transformar a realidade que estuda

Uma das marcas mais perversas na desigualdade social brasileira na educação é a do acesso à universidade. As tímidas políticas públicas voltadas para a ampliação da educação superior não conseguiram, ou não pretenderam, aproximar a universidade pública do horizonte de vida da maioria dos jovens da classe trabalhadora. Muitos sequer sonham com essa possibilidade de cursar uma “pública”, no máximo contemplam a “faculdade privada”.

Se isto é verdadeiro para o ensino de graduação, quando falamos de pesquisa acadêmica, a distância é ainda maior. Contraditoriamente, embora poucos favelados se tornem pesquisadores universitários, a favela é um dos temas clássicos de pesquisa no campo das ciências sociais. Tal contradição está na base de sentimentos ambíguos por parte da população das favelas em relação aos pesquisadores que fazem daquele território seu campo. Se, por um lado, há a expectativa de serem ouvidos, de conquistarem melhorias para suas favelas, de denunciar as mazelas vividas, por outro, existe a desconfiança de que tais pesquisas ajudem mais aos pesquisadores em suas carreiras do que propriamente aos seus “objetos” de estudo.

Há muito sentido nessa desconfiança. De fato, até mesmo pela ausência de discussão acadêmica sobre questões éticas nas pesquisas em territórios favelados, pelas dificuldades de divulgação dos trabalhos e também pela frequente surdez do poder público para com os resultados dessas pesquisas, aparentemente pouco impacto elas trazem para a favela. Digo aparentemente, pois tenho certeza de que a permanência das favelas no cenário da cidade tem a ver obviamente com a resistência do povo favelado, mas também com a atuação de aliados não favelados, e aí incluo os inúmeros pesquisadores que se voltaram a conhecer, compreender e mesmo defender a existência das favelas.

Voltando à desconfiança, nela também existe o mito de que os pesquisadores ficam “ricos” com seus livros e teses, o que sabemos não ser verdade para a maioria, professores assalariados de classe média. Existe ainda a recusa em ser “objeto” de pesquisa, “ratos de laboratório”, como ouvi recentemente. Para estes, os próprios favelados seriam as únicas vozes legítimas para falar sobre a favela. Se, por um lado, tal reivindicação parte de uma legítima demanda de voz e espaço na produção de conhecimento sobre a favela, por outro, ela também não está livre de complexas questões que envolvem financiamento de ONGs e o capital (simbólico e econômico) capaz de ser mobilizado com o rótulo favelado.

Todas essas tensões me fazem refletir sobre o meu papel como pesquisadora. Quando me perguntam sobre o “retorno” que minhas pesquisas darão para a favela sempre sinto um frio na espinha. Afinal, tal retorno pode ser muito modesto frente às expectativas geradas. Minha posição é pessoal e não pretendo ditar um receituário ético. Até porque, o caminho que escolhi também gera muitas dificuldades. Como pesquisadora, não me vejo pesquisando a favela ou mesmo na favela.
Procuro colocar meu capital cultural e as relações que posso mobilizar a favor de demandas que percebo entre meus interlocutores (e não informantes e menos ainda objetos) de pesquisa. Em diálogo, pretendo pesquisar com a favela. Creio ser esta uma posição democrática que, ainda que não seja capaz de superar conflitos e contradições gerados pela brutal desigualdade social que coloca pessoas de classes sociais distintas em mundos culturalmente separados, pode despertar novas práticas. Subverter, por um lado, o autoritarismo do saber acadêmico e seu distanciamento das demandas dos pobres e, por outro, as expectativas geradas por anos de clientelismo estatal ou ongueiro não é tarefa fácil. Mas o desafio, acredito, vale a pena acadêmica, política e existencialmente.

Adriana Facina é antropóloga e professora do Departamento de História da Universidade Federal Fluminense (UFF). Coordena o Observatório da Indústria Cultural e figura entre o(a)s principais pesquisadores de favelas e cultura popular, além de ser uma importante ativista social.

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