Ocupação de Wall Street: qual é o verdadeiro sonho americano?

rdteixeira outubro 16, 2011 0

Por Diana Aguiar

Há algumas semanas, enquanto os Ministros de Finanças dos países do G20 reuniam-se em Washington, era ao sul da ilha de Manhattan que se concentrava um dos mais poderosos símbolos da possibilidade de mudança dos nossos tempos: a mobilização popular que ocupando a Liberty Square em Wall Street agora já há mais de três semanas envia uma mensagem poderosa de descontentamento com o sistema no centro do capitalismo corporativo e financeiro global.

Tendo a ocupação da Praça Tahir no Egito como referente máximo, o movimento estadunidense demonstra um fôlego inesperado. Enquanto ocupam indefinidamente, são estabelecidas regras de convivência (como o acordo de não fumar na praça), assembléias para decisão coletiva e formas de organização do espaço. A partir de uma “cozinha” coletiva central que concentra as doações de alimentos para os ocupados, pode-se caminhar em direção aos quatro vértices da praça para encontrar uma “biblioteca popular”, o centro de mídia com internet wireless, um espaço de espiritualidade, os colchonetes onde dormem, um espaço para preparar cartazes, etc., e até a recém-inaugurada mesa do “Occupy Wall Street en español” para os latinos organizarem suas próprias assembleias no idioma.

As assembleias gerais são anunciadas com antecedência no site do movimento. Por proibição da polícia, não podem utilizar amplificadores de voz, restrição superada por ondas concêntricas de repetição da fala da qual participam todos e que vai reverberando até a borda do grande círculo. Qualquer um pode tomar a palavra e propor o que quiser, em uma tentativa de radicalização da liberdade de expressão.

Em pouco tempo, a ocupação já tem um jornal – o “Occupy Wall Street Journal”, já recebeu a visita de figuras diversas, de Susan Sarandon a Slavoj Zizek, e atraiu a atenção de curiosos, de turistas e da mídia. Uma passeata no dia 01 de outubro resultou em cerca de 700 manifestantes presos na Ponte do Brooklyn, no que alguns descrevem como uma armadilha da polícia nova-iorquina, que já havia demonstrado sua truculência com os ocupantes da praça nos dias anteriores. Uma semana depois, a ocupação tem respondido a estes atos com redobrada energia, ainda maior e mais organizada. Na noite de sexta-feira, 07 de outubro, um grupo composto em sua maioria de jovens dançavam ao ritmo de instrumentos percussivos, enquanto imagens de pôsteres de protesto eram projetados em um dos prédios vizinhos.

Os manifestantes ainda têm relutado em estabelecer uma plataforma comum. Declaradamente o que os une é a indignação com um sistema que socializa os riscos dos mercados financeiros através da injeção de recursos bilionários, enquanto mantém os lucros exorbitantes privatizados e os custos sociais da crise ignorados. Mas o que colocar no lugar disso ainda é pouco discutido. De fato, comentaristas políticos estadunidenses favoráveis como Paul Krugman têm defendido que a questão central é a existência de vozes contestadoras, e não o que propõem os manifestantes. Talvez por medo de expor a fragilidade do movimento, ainda sem demandas comuns. Talvez por temer que as propostas de alguns dos manifestantes seja muito mais crítica e radical do que tais comentaristas quereriam apoiar.

Ainda que muito menor que a ocupação do Cairo, que em seu auge chegou a reunir cerca de 1 milhão de manifestantes, a “Tahir” estadunidense tem um poder simbólico especial. A algumas quadras de distância da Bolsa de Valores de Nova Iorque e do “Ground Zero” (área do antigo World Trade Center), a ocupação centraliza as contradições no centro do hegemon em sua forma mais crua: a partir da indignação de seus próprios “cidadãos”, não sentindo-se representados pelo sistema que a ideologia do “sonho americano” ajudou a forjar. De fato, sonhar com o novo é um ato tão revolucionário em tempos de “não-há-alternativas” neoliberal, que os ocupantes encontram dificuldade em repensar o sistema que criticam. Mas ao observar a Liberty Square, somos tomados por um palpitar que nos sussurra que há vida inteligente na aridez da política estadunidense. E que, possivelmente, os movimentos de contra-cultura, pelos direitos civis e contra a Guerra do Vietnam possam ser mais do que uma memória adormecida para uma sociedade civil que tem sido sistematicamente convencida que através do consumo realizará suas potencialidades individualmente.

Ao que parece, uma brecha permitiu a emergência de alguns que entendem a necessidade de utopias que se concretizem não através do consumo, mas da revisão profunda dos valores que organizam a sociedade. Buscam sonhar coletivamente uma outra sociedade, para muito além do ilusório “sonho americano”.

Diana é feminista, mestre em Relações Internacionais (PUC-Rio), participa da Rede Brasileira pela Integração dos Povos (REBRIP) e trabalha atualmente como pesquisadora da Associação pelos Direitos das Mulheres no Desenvolvimento (AWID).
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

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